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por
Juan Casassus,
especialista principal da UNESCO para a América Latina e o
Caribe.
Imaginemos que hoje despertamos e notamos que o
mundo mudou. Que já não é mais como no dia anterior.
Imaginemos a sensação de estranheza que isto nos produz. E
na medida que internalizamos esta estranheza, percebemos que
vem acompanhada de tomadas de consciência. Por exemplo, de
repente percebemos que as atividades que realizamos fora de
nossos lares já não são atividades que nos conduzem pelo
caminho da felicidade, mas são apenas atos de
sobrevivência. Paulatinamente compreendemos que nos
transformamos em prisioneiros de um sistema impessoal; um
sistema tecnocomercial que determina o que gostamos, o que
devemos pensar, o que devemos fazer e como fazê-lo. Se por
azar isto se torna insuportável para nós, então -
mediante uma módica quantia - põem-se à nossa
disposição uma multiplicidade de meios e diversões para
desviar nossa atenção e , assim, não ver e nem sentir. Se
por azar não dispomos deste valor, abre-se para nós o
acesso a drogas que nos nublam, anulam ou confundem a
consciência.
Isto que vemos hoje é algo que alguns como
Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo descreveram desde
1932. Porém, continuemos. É fácil ver que ao sair na rua,
ou quando entramos em um centro comercial ou num banco,
percebemos que estamos a maior parte do dia sob o olho de
alguma câmera que registra nossos movimentos. Isto também
foi descrito por George Orwell há mais de cinqüenta anos.
Aos poucos nos damos conta deste absurdo e do fato de que
nós seres humanos - inconscientemente - fomos construindo
um tipo de sociedade que se fez autônoma, que se
auto-reproduz e que acabou por nos submeter às suas
próprias leis.
Isto não é novidade. Basta só olhar por
baixo da superfície para dar-se conta de sua realidade.
Isto é hoje quase um fato de cultura popular, como
demonstraram os irmãos Wachowski em seu filme Matrix.
Então, o problema central não é tanto reconhecer "a
grande besta", mas encontrar respostas a perguntas tais
como: "Como chegamos a esta situação? Quais são as
leis que o regem? O que se pode fazer?" Esta é a
tarefa que Cláudio Naranjo aborda neste novo livro.
Muitos são os pensadores que se deram à
tarefa de escrever importantes ensaios para considerar estas
perguntas e produzir respostas filosóficas, científicas,
históricas, psicológicas, econômicas e sociológicas. A
peculiaridade do enfoque de Cláudio Naranjo é que, mesmo
quando seu olhar erudito se apóia em distintas disciplinas,
ele oferece uma interpretação sistêmica do acontecido.
Sua visão não é só de alguém versado em educação,
medicina, história ou psiquiatria, como também sobrepõe
estas disciplinas para confluir numa visão complexa e
integrada da realidade.
A resposta de Naranjo às perguntas anteriores
é surpreendente. Remete-nos a uma viagem de
interiorização, convidando-nos a olhar nosso tempo desde
os espaços psicológicos e espirituais. Nesta viagem
iniciática, Naranjo argumenta que a existência humana se
desenvolve em padrões evolutivos e descreve como, sob a
forma de movimentos paralelos com estes padrões evolutivos,
ocorre, não só a nível pessoal, mas também em um espaço
biológico, social e cultural mais amplo. Cada época evolui
da precedente em um processo contínuo e sem fim. Tão
importante como conhecer o processo é encontrar, no tempo
que nos cabe viver, seu sentido e o que corresponde fazer na
fase em que está ocorrendo.
Em nossos atuais tempos de crise e de profunda
transformação, Naranjo reconhece que a educação
constitui nossa melhor esperança. Ou, dito de outra
maneira: que a transformação da educação é nossa melhor
ponte para um futuro melhor. Efetivamente, se há um tempo
em que é necessário reinventar a educação, esse tempo é
agora.
É notório que hoje o desenvolvimento da
educação é determinado pelas necessidades do Estado, como
o são a criação da nação e o desenvolvimento da
cidadania; ou pelas necessidades do mercado, que requer o
desenvolvimento de competências exigidas pelo setor
produtivo; ou, em menor escala, pelas necessidades dos
preocupados em gerar especialidades em disciplinas tais como
as ciências, a matemática ou a linguagem, que são as
fontes geradoras de conteúdos curriculares que determinam a
matéria e a lógica das disciplinas cognitivas. Porém
nenhuma destas fontes tradicionais tem como fonte as
necessidades integrais das pessoas. Por isto a proposta de
Naranjo é tão oportuna.
As idéias de Naranjo sobre educação se
baseiam na tradição dos pensadores integrais como
Rousseau, Dewey, Montessori ou Steiner. Ele propõe uma
educação nova, "uma educação da pessoa inteira para
um mundo total" (...) para "entender o que
nos acontece e o que acontece ao nosso redor". Este é
um dos pontos centrais que encontramos neste livro: a
necessidade de desenvolver uma educação que possa integrar
as pessoas e o mundo onde vivem. A sua educação é uma
postura que se inscreve nas tradições humanistas, porém
aplicada ao mundo de hoje. É ver a educação como uma
maneira de fazer frente à distância entre a crescente
complexidade dos problemas que os seres humanos têm que
enfrentar e sua capacidade de enfrentá-los. A educação
tem o potencial de ser uma ponte para esta brecha.
Porém, o que Naranjo propõe não é qualquer
educação. Ele propõe uma educação triplamente
integradora. Por um lado, propõe uma visão holística,
orientada para a educação da pessoa inteira. Por outro
lado fala de uma educação integradora quanto ao
equilíbrio entre as distintas culturas do planeta e, enfim,
também estabelece a necessidade de uma educação que se
relacione com o conhecimento de maneira ativa, buscando o
equilíbrio entre o teórico e o prático. A visão de
educação proposta por Naranjo é próxima do rumo que
tomou minha investigação sobre a educação quanto à
necessidade de desenvolver uma educação integral das
pessoas: tanto da vida emocional como da vida mental. e isso
ocorrer por meio da educação podemos nos converter em
seres completos, podemos esperar a emergência de um mundo
melhor. A educação, em vez de tender a buscar o controle
social,deveria empreender o rumo da consciência e da
liberação.
A proposta educativa de Cláudio Naranjo tem a
virtude de integrar distintas tradições que normalmente
tendem a funcionar em espaços estanques. Nas páginas que
se seguem, pode-se ler que é proposto o uso de metodologias
inovadoras para o âmbito acadêmico. Para isto, Naranjo se
apóia no saber humano: a metodologia de educação do corpo
se fundamenta em fontes tradicionais, como o hata yoga e o
tai chi chuan, e também em fontes modernas, como as de
autoconsciência através do movimento ou a eutonia.
Para a educação dos sentimentos propõe
desenvolver a vida emocional, recuperando a capacidade de
identificar as próprias emoções e a possibilidade de
expressá-las de forma autêntica e adequada, em contato com
a literatura e com o psicodrama, de uma maneira que não
seja separada das relações interpessoais e do
autoconhecimento. Quanto à educação da mente, dá ênfase
nas matemáticas, mas também no trabalho musical, não
apenas por si mesmo, mas pela necessidade de conseguir um
desenvolvimento equilibrado de lateralidade de ambos os
hemisférios cerebrais. Por último, a educação do
espírito se orienta para o desenvolvimento da capacidade de
transcender nosso próprio ego - o caráter - para ter
acesso ao transpessoal. Para isto, não hesita em lançar
mãos de práticas de meditação e de desenvolvimento da
capacidade de concentração.
Este livro é um curso sobre a evolução, a
consciência, a transformação e, sobretudo, o amor - o
amor a si mesmo, o amor compassivo e o amor sublime.
Imaginemos que hoje despertamos e notamos que o mundo mudou.
Que já não é como no dia anterior. Imaginemos que é um
mundo saudável, integrado, transformado, transformado por
uma educação de amor. Imaginemos a sensação que isto nos
proporciona.
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