Nesta parte do site serão apresentadas diversas palestras de Cláudio Naranjo com ênfase na educação. Acrescentaremos mais palestras em breve.


Palestras de Cláudio Naranjo.


  Palestra N° 1 

   Bem sabemos que o que tenho feito não é apenas uma formação de terapeutas,
do tipo que se costuma oferecer nas escolas profissionalizantes; minha
proposta é uma educação de terapeutas, na qual o elemento significativo não
seja apenas um estudo teórico ou técnico em si, mas uma formação
psico-espiritual e pessoal - uma educação de seres humanos, ou seja, uma
educação que forme terapeutas mais humanos. Isso implica em trabalhar por
uma educação que abranja uma dimensão amorosa da vida, assim como por uma
série de outros elementos tão importantes quanto a autenticidade ou o
autoconhecimento. Entretanto, é óbvio que essas coisas todas não são
importantes apenas por contribuir para a eficácia dos terapeutas, senão pelo
fato de que são de relevância universal, principalmente no que se refere à
educação de todos os jovens.

   Ao longo dos últimos quinze anos, aproximadamente, tenho dado conta do que
acontece - ou melhor, do que não acontece - na educação, pois isso fez com que o
que hoje se chama de Educação parece-me uma instituição de negócios, monstruosa
pela imbecilização coletiva e pela inibição de desenvolvimento que acarreta em seus
formandos. Simpatizo profundamente com Ivan Illich e com sua proposta de
desescolarização, pelo fato de acreditar que melhor seria terminar com nossa
custosa instituição retardatária, se não fosse pela possibilidade de utilizar esses
canais antigos com um novo conteúdo - algo como colocar vinho novo em odres velhos!
Já que existem salas de aula, e já que existe a instituição - com sua burocracia -
como seria se a sociedade aprendesse a colocar a velha instituição à serviço de um
propósito melhor?

   Pouco a pouco me apaixonei pela idéia de transformar esse obsoleto órgão da
sociedade (que é o único que se pode considerar com a função de estímulo ao
desenvolvimento das pessoas) para que possa, finalmente, cumprir essa
função: servir eficazmente ao educando para a maturação e a realização de
suas potencialidades. Mas me parece que para atingir tal objetivo faz-se
necessário um despertar da comunidade para a percepção dessa tragédia
desapercebida que é uma educação que instrui sem educar. De igual forma, é
importante despertar as pessoas para o fato de que o mundo está mal por que
não temos suficiente consciência, porque ficamos atrasados em nosso
desenvolvimento e porque estamos muito longe da condição de seres humanos
completos.

   Acredito que todos os nossos problemas econômicos e internacionais - problemas aos
quais denominamos de grandes e graves - têm a ver com o simples fato de que não
somos seres humanos capazes de nos comportarmos de maneira sã e adulta. Aquilo que
em outros tempos era avaliado como sendo um problema ético, hoje é algo que podemos
reconhecer como um problema de saúde emocional: há uma interferência ou uma
incapacidade em nos relacionarmos fraternalmente com nossos semelhantes! Carregamos
conosco problemas de amor que complicam todos os nossos relacionamentos,
contaminando-os de egoísmo, de necessidades excessivas, de frieza, agressão,
dependência, controle ou manipulação.

  Sendo assim, o desejo por um mundo melhor que não contemple a transformação da
educação me parece condenado à inoperância. Neste caso, não se trata apenas de se
agregar alguns elementos ao currículo, e sim de mudar - desde a base - a concepção
dos objetivos da educação, para que possamos ter uma educação para o
desenvolvimento humano, ou seja, uma educação que não se ocupe tão somente de nos
preencher a cabeça com informações e bons propósitos, mas que se interesse, na
mesma medida, em fazer com que cheguemos a ter um coração, e que saibamos ser fiéis
à vontade e intuição de nossas entranhas. Resumindo: uma educação para os seres
tricerebrados que somos.

   Tenho me interessado, cada vez mais, em chamar a atenção das pessoas para o fato de
que a obsolescência da educação é algo lamentável neste momento histórico no qual
nos encontramos, em que se torna essencial para o novo rumo que deve tomar o mundo,
a formação e o desenvolvimento de seres humanos capazes de ter mais compaixão e
sabedoria. Quando se fala do estado crítico em que se encontra o mundo tem-se
sempre presente o problema da militarização e o da comercialização do mundo. Embora
tal preocupação seja compreensível diante do fato de como a política se encontra
regida por considerações econômicas de curto prazo, não se dá atenção para o fato
de que tudo o que está ocorrendo se faz com a ajuda de um sócio invisível: a
Educação! que como cúmplice do complexo militar-industrial, serve mais para
perpetuar o estado atual das coisas - na medida em que propicia a socialização e a
expansão de nossas atitudes aberradas - que para a evolução pessoal e social.

   Um número considerável de pessoas está de acordo de que é chegada a hora de haver
uma transformação em nossa mentalidade e em nossas instituições. Tem-se dito que a
situação tão crítica na qual se encontra o mundo é, uma grande e nova oportunidade
de mudança; porém, necessita-se de mais lucidez - além de boas intenções- e não
vejo nada que possa ser de tanta relevância para um futuro melhor que a Educação.
Acredito que o sistema educacional - tão morto, tão destituído de entusiasmo - no
qual pessoas bem intencionadas se vêem presas a uma instituição altamente
fossilizada, tenha o potencial de tornar-se uma atividade relevante e eficiente
para atender esse problema humano que subjaz à maior parte de nossos inumeráveis
problemas coletivos.

   Assim, não só me tornei militante no que diz respeito ao propósito de chamar
a atenção do público - e em especial dos próprios educadores - a respeito
desses assuntos, como tenho me apercebido de que o que fazemos através dos
programas SAT - arando o desenvolvimento pessoal e terapêutico dos
assistentes dos SATs - poderia servir à sociedade como um todo se fosse
levado ao mundo da educação. O que mais faz falta no âmbito educacional
poderia ser descrito como a conjunção de uma maior capacidade terapêutica,
bem como um nível espiritual mais elevado por parte dos educadores. Ainda
que se suponha haver um interesse superficial e descomprometido por essas
coisas, também é verdade que o que se refere à eficácia e à espiritualidade
na instituição está sujeito a tabus enraizados: tradicionalmente a educação
não se mistura com o terapêutico em função de se ter tentado promover a
psicanálise antes do tempo. Isso teria levado a um monopólio psicanalítico
da educação, e fico contente de que os educadores tenham sabido defender sua
autonomia. No entanto, o que aconteceu é que as únicas psicologias vigentes
no momento são o behaviorismo e o construtivismo - e ainda assim não são as
mais relevantes. O que há de mais significativo e marcante é algo mais vivo
e vivencial e que foi gerado no mundo terapêutico dos anos 60 em diante,
durante os tempos neofreudianos, humanistas e transpessoais.

   É fácil imaginar que o que está servindo a buscadores, terapeutas e, indiretamente,
a seus pacientes, serviria não só aos educadores mas potencialmente ao mundo todo 
através dos jovens. De maneira especial, ajudaria a por em marcha uma mudança
profunda na educação, que me parece a melhor operação de salvamento possível
enquanto nosso sistema obsoleto se afunda.
Não se deve ver como algo trágico o fato de que o sistema está afundando, pois
tanto no coletivo como no individual a transformação implica em que algo deva ficar
para trás. A ruína do sistema patriarcal - que me parece o maior acontecimento nos
princípios do terceiro milênio - é o equivalente ao que no desenvolvimento superior
do indivíduo representa a morte do ego. Chamo de sistema patriarcal algo que vai
mais além do que simplesmente o mundo industrial dos últimos séculos, e que é
muito mais antigo que o capitalismo. Refiro-me a algo que temos idealizado desde
que foi estabelecido com o começo das civilizações: o princípio hierárquico de uma
autoridade exploratória que se mascara de sábia e de bondosa, e que pelo bem de
todos faz as coisas como faz. Nesse contexto, a educação ensina o indivíduo a ficar
quieto e a obedecer, a pensar conforme se deve, a agüentar e a engolir - sobretudo
implicitamente - independente do conteúdo explícito do currículo.

   Ao longo da história aconteceram muitas revoluções como a francesa, a bolchevique,
a das colônias, dentre outras, que até certo ponto lograram triunfos. Hoje em dia,
o sistema está mais poderoso que nunca, de maneira que o nível de poder e o nível
de controle são inusitados. Mais que os exércitos, é o dinheiro quem manda, e o
espírito do sistema é que só o lucro conta: pessoas importam menos e menos, e são
mais e mais engolidas por uma sistemática de trabalho à medida que o mundo se
transforma em um mercado de trabalho no qual os valores culturais vão
desaparecendo. Nesse mundo é muito difícil lutar pelo que quer seja, ou contra o
que quer que seja. Desta forma poderíamos nos perguntar, o que pode fazer o
pacifismo numa época em que impera uma violência tão intrínseca ao próprio sistema?
E de que adianta a campanha por tolerância num mundo em que se confunde a justiça
com as justificativas? Estamos diante de um mundo que condena o indivíduo a um
sentimento de impotência, embora ainda nos reste uma esperança: a de criar pessoas
melhores, a de nos dedicarmos à formação de uma próxima geração composta por
pessoas mais completas que nós mesmos.

   Acredito ser possível entrar no sistema educacional mundial convencendo, os
que nele estão presentes, da importância de uma mudança de rumo, justamente
porque acredito que todos tenham boas intenções. Há um pouco de cegueira e
um muito de inércia institucional, mas poder-se-ia conseguir que a educação
formasse uma geração diferente. Uma geração de seres tricerebrados
harmônicos - como Gurdjieff acreditava ser possível - que recebam uma
educação não só para a mente, mas para o coração e para o seu ser mais
profundo, reconectando-o com o espírito dionisíaco da criança interior, 
fazendo surgir soluções que hoje em dia são impensáveis sob o ponto de vista
da máquina de pensar que rege o mundo: os computadores e os economistas de
mentes computadorizadas -- já que quanto mais economistas estão ao leme,
mais problemas econômicos temos detectado que há. 

   Parece-me que a educação é a melhor saída, e talvez a única: nosso bote
salva-vidas até o futuro, nossa ponte para um amanhã diferente. Mas se
ficássemos na simples recomendação de que a Educação cumpra com sua função
que lhe é peculiar, apenas esperaremos ensaios mais bem intencionados, e
dificilmente uma atitude eficaz e rápida que possa aprofundar e buscar sanar
essa situação crítica na qual nos encontramos. Mesmo que em algum lugar haja
alguém que saiba trabalhar com psicodrama e leve um pouco de psicodrama à
escola; ou que em outro lugar haja alguém cujo sentido de devoção o leve a
trazer o sentido do divino à escola, ou que em outra parte, talvez, alguém
que tenha encontrado algo importante com a prática da meditação proponha
trazer aulas de ioga à escola... enfim, embora sejam atitudes significativas
e bem intencionadas, não se chegaria muito longe. 
Entretanto, isso que estamos fazendo aqui1 - que evoluiu de ano em ano como
as pedras que são lavadas pelo rio e que pouco a pouco a água as vai polindo
- poderia ser, por sua comprovada eficácia e economia de recursos, decisivo
para a transformação da Educação a qual tanto nos referimos e da qual 
necessitamos.

   Eu não poderia ter inventado - e nunca inventei - um SAT! O SAT surgiu de
uma improvisação, quando trabalhei em Berkely há 30 anos com um grupo
específico ao longo de uns 3 anos. Dessa improvisação cristalizou-se um
primeiro currículo, e esse currículo foi se modificando pouco a pouco.
Parece uma simples coleção, um tanto quanto arbitrária de coisas, mas o
encaixe entre elas vai muito mais além para quem teve a experiência, pois a
forma como as coisas se complementam está muito além das palavras. 

   Assim, em um primeiro plano, encaixam-se o olhar retrospectivo à formação da
personalidade no seio familiar durante a infância, e o olhar transversal à
personalidade na vida presente; o efeito dessas atividades - de caráter
terapêutico - se multiplica pela justaposição com a prática do desapego
meditativo e com a desidentificação. Ainda que o indivíduo tenha pouco êxito
em meditar, adquire um novo ponto de vista que o afeta em seu todo, mudando
seu próprio eixo referencial. Temos, dessa forma, não apenas um programa
altamente sofisticado, mas também uma escola viva que possibilita ao sujeito
encarná-la e transmiti-la através de sua vivência. Se isso se introduz na
Educação, resultará em algo como uma polinização. 

   Imaginemos, por exemplo, que aos atuais cursos formadores de professores,
nas diferentes universidades, se agregasse o que fazemos aqui como um breve
complemento - já que 10 dias por ano não é muito! Em um programa
convencional, 10 dias seriam apenas um golpe forte ao coração, e nada mais.
No entanto, o SAT se baseia em um processo e esta modalidade, como bem o
sabemos, é uma experiência de iniciação em algo que começa a se desenvolver
por si só, permitindo com que o indivíduo comece a se desprender do passado
e a entrar em uma nova órbita.

   Se isso ocorresse nas escolas, através da implementação do programa em suas equipes
de docentes, pode-se imaginar como se transformariam em comunidades vivas: grupos
verdadeiros e amorosos nos quais as pessoas - os professores - saberiam
compreender-se e ajudar-se, e a criança - menino ou menina que por ali passasse -
seria abençoado em sua formação educacional!

   Portanto, tenho a impressão de que mudar o mundo, por mais impossível que
possa parecer, não seria muito difícil se nossa intenção fosse a de afetar o
mundo de um futuro bem próximo.! 

   E mudar a Educação não será impossível desde que tenhamos uma consciência a
compartilhar, e uma experiência comprovada para transmitir!